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Superdotação, sofrimento silencioso e a armadilha da felicidade: um convite ao cuidado psicológico


Apesar do que muitos imaginam, a superdotação não é um caminho fácil rumo ao sucesso e à felicidade. Para muitos adultos superdotados, a jornada é marcada por uma profunda sensação de inadequação, angústia existencial e conflitos internos persistentes. Em um mundo que frequentemente cobra adaptação, essas pessoas muitas vezes vivem presas entre seu potencial extraordinário e a dificuldade de encontrar um sentido real para suas experiências.

É aqui que o livro A armadilha da felicidade, de Russ Harris, se torna especialmente relevante — não apenas como um manual de bem-estar, mas como um espelho da mente altamente sensível, intensamente ativa e frequentemente autocobradora dos adultos com altas habilidades.

A mente superdotada e o excesso de pensamento

Modelos teóricos como o de Joseph Renzulli e Françoys Gagné apontam que a superdotação vai além do QI elevado: envolve também traços como criatividade, motivação, sensibilidade emocional e complexidade de pensamento. Esses mesmos traços, no entanto, podem levar a armadilhas psíquicas quando não são bem compreendidos ou acompanhados.

Russ Harris explica que nossa mente humana evoluiu para buscar perigos e resolver problemas — e isso é intensificado em indivíduos superdotados, cujas capacidades analíticas e sensibilidade emocional os tornam mais propensos à ruminação, à ansiedade antecipatória e ao perfeccionismo paralisante. Assim, muitos vivem constantemente no modo “LUTAR” ou “ACATAR”, descritos pela Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): lutam contra sentimentos difíceis ou se deixam dominar por eles, reforçando movimentos mentais que os afastam de uma vida com sentido (Harris, 2024).

A armadilha do desempenho e o mito da felicidade constante


Outro ponto de conexão entre a ACT e os estudos sobre superdotação é o conflito entre ser quem se é e ser quem esperam que você seja. Muitos superdotados crescem ouvindo que são “acima da média”, o que gera expectativas irreais — internas e externas — sobre desempenho e controle emocional. O resultado, muitas vezes, é um perfeccionismo disfuncional, medo da crítica e autossabotagem silenciosa.

Russ Harris desmistifica a ideia de que a felicidade é um estado constante. Segundo ele, viver plenamente significa permitir-se sentir toda a gama de emoções humanas — incluindo tristeza, frustração e vazio — sem que isso seja visto como falha. Para adultos superdotados, essa visão pode ser libertadora: não é preciso estar sempre bem, sempre produtivo ou sempre brilhante. É possível ser humano.


Psicoterapia como espaço de reconexão


A ACT propõe um caminho centrado em valores e ações com sentido, em vez de controle emocional absoluto. Isso pode ser profundamente restaurador para superdotados adultos, que muitas vezes se sentem desconectados de seus próprios desejos, vivendo para atender às expectativas de um “ideal de sucesso” que nunca se concretiza por completo.

A psicoterapia pode ser um espaço de escuta e reconstrução onde:

  • Aprendemos a reconhecer nossos ganchos mentais (ruminações, comparações, autocríticas);

  • Praticamos o desprendimento de pensamentos paralisantes;

  • Entramos em contato com os valores que importam de verdade, criando ações pequenas, mas consistentes, rumo a uma vida significativa.


Dicas práticas para adultos superdotados cuidarem da saúde mental:


  1. Observe seus pensamentos, mas não os siga cegamente. Um alto poder analítico pode criar armadilhas internas sofisticadas. Questione a utilidade dos seus pensamentos, não sua veracidade.

  2. Aceite a oscilação emocional. Ser sensível é parte de quem você é — isso não é defeito. A ACT ensina que podemos abrir espaço para sentir sem sermos arrastados.

  3. Conecte-se aos seus valores — não apenas às suas capacidades. O mundo já admira o que você faz. Mas você se lembra de quem você quer ser?

  4. Procure apoio especializado. Nem sempre é fácil conversar com pessoas que não compreendem sua complexidade. Psicólogos que conhecem a ACT e têm familiaridade com o universo da superdotação podem ajudar com estratégias mais sintonizadas com sua vivência.

✨ Se você se reconhece nesse texto, saiba: seu sofrimento não é frescura, nem exagero. É legítimo — e há caminhos para transformá-lo!  A psicoterapia pode ser uma ferramenta preciosa para quem deseja sair do automático e viver com autenticidade, mesmo (e sobretudo) com uma mente intensa.

Você não está sozinho. Conte comigo, que também fui identificado como Superdotado na idade adulta e compreendo quais os percalços enfrentar na conquista de uma vida mais equilibrada e saudável emocionalmente,

Referências

Gagné, F. (2004). Transforming gifts into talents: The DMGT as a developmental theory. High Ability Studies, 15(2), 119–147. https://doi.org/10.1080/1359813042000314682

Harris, R. (2024). A armadilha da felicidade: pare de sofrer e comece a viver (2ª ed., A. Vidal, Trad.). Alaúde.

Renzulli, J. S. (2005). The three-ring conception of giftedness: A developmental model for promoting creative productivity. In R. J. Sternberg & J. E. Davidson (Eds.), Conceptions of giftedness (2nd ed., pp. 246–279). Cambridge University Press.

Pedrotti, J.T., Lopez, S. J., McDermott, R. C., & Snyder, C. R.

. (2024). Positive psychology: The scientific and practical explorations of human strengths (5th ed.). SAGE Publications.

 
 
 

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© José Angelo Fiorot Junior - Psicólogo Clínico - Analista do Comportamento - Mestre em Educação - Doutor em Psicologia - Unesp (Bauru)

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